Marina Tonet tinha 27 anos quando assinou o term sheet que vendeu a Atual, fintech de meios de pagamento que fundou com dois sócios, para um grupo americano. Três anos depois, ela ainda lida com o que chama de “fase intermediária” — período em que o dinheiro já entrou, o nome ainda está atrelado ao da marca antiga, e a próxima decisão profissional segue em aberto.

Conversei com Marina por duas tardes em São Paulo. O que segue é um resumo editado dessas conversas, com sua autorização.

Sobre o earnout que ninguém te conta

“A maior parte do valor anunciado no press release não entra na sua conta no dia da assinatura. Entra ao longo de dois, três, quatro anos, condicionado a metas que você ajuda a negociar, mas que vivem do outro lado de uma tabela do Excel. O dia em que percebi que minha rotina ia continuar igual por mais 36 meses foi humilhante e libertador ao mesmo tempo.”

Eu achei que ia poder respirar. Na verdade, eu tinha trocado de chefe — e o novo chefe era um KPI.
Marina Tonet

Sobre o vazio depois

“O que eu não tinha previsto é o que viria depois do earnout. Estamos em um país onde fundadores de primeira viagem são tratados como rockstars enquanto a empresa cresce, e como aposentados precoces no dia seguinte à saída. Demorei quase um ano para entender que eu não precisava ter uma próxima empresa pronta para ser uma resposta socialmente aceitável.”

“Hoje participo de quatro conselhos, três no Brasil e um em Lisboa. Não rejeito ideias novas, mas também não me apresso. Quem vendeu cedo precisa lembrar que a próxima decisão profissional vai durar pelo menos uma década.”

Encerrei a entrevista perguntando o que ela diria para si mesma aos 25. Marina respondeu sem hesitar: “Negocia o earnout com tanto cuidado quanto você negocia o valuation. A vida fica em jogo entre os dois.”