O ciclo de cortes da Selic, que o mercado projetava em janeiro como o mais rápido desde 2017, está sendo desenhado em outro ritmo. A ata do último Copom trouxe três sinais que economistas leram como conservadores: a persistência da inflação de serviços, a leitura mais cautelosa sobre o hiato do produto e o peso renovado das incertezas fiscais.

Em conjunto, os três fatores levaram a maior parte das casas a empurrar para o terceiro trimestre a expectativa de uma Selic abaixo de 9%. Há quatro meses, dezembro de 2026 era visto como o piso. Hoje, a mediana se acomoda em 9,25% para o fim do ano — meio ponto acima do consenso anterior.

O dado que mudou o jogo

A inflação de serviços segue rodando entre 5,3% e 5,8% nas três últimas leituras. É um patamar que o Banco Central monitora com atenção porque captura preços rígidos, sensíveis ao mercado de trabalho. Com desemprego em 6,1% — mínima histórica da série — o BC vê espaço limitado para acelerar cortes sem reabrir o debate sobre desancoragem das expectativas.

O recado da ata foi claro: o ritmo de redução é decisão de reunião, não de ciclo. Tradução prática: o Copom evita se comprometer com cortes de 75 pontos-base seguidos, ainda que a economia desacelere.

O Copom comprou tempo. Quem esperava sinalização de aceleração para junho vai precisar revisar o flat.
Felipe Camargo, economista-chefe da Apex Asset

O que muda para o investidor

Na ponta da carteira, o efeito mais imediato é sobre prefixados longos. Os títulos de 2031 e 2033 perderam fôlego nas últimas duas semanas, e o spread sobre a NTN-B equivalente devolveu cerca de 60 pontos-base. Para quem montou posição em janeiro, é momento de revisar — não de zerar.

Já a renda fixa atrelada ao IPCA segue como ponto de equilíbrio das alocações conservadoras. Com a inflação implícita em torno de 4,8% no vértice de 2030, prêmios reais acima de 6,5% continuam disponíveis nas emissões bancárias mais longas.

Para a bolsa, o quadro é mais ambíguo. Setores cíclicos descontados desde fevereiro precisam de um catalisador adicional para destravar — e esse catalisador, na visão de gestores ouvidos pelo NoticiaHub, deve vir mais do fiscal do que do monetário.